Vídeo: Comptine d'un Autre Été - Stevie Ryan
Naquela noite arrumou algumas coisas numa mala preta, empoeirada, mas ainda por estrear.
A mala que tinha comprado para a viagem que nunca haveria de fazer.
Dentro de uma gaveta, deixou uma caixa velha de sapatos. Lá dentro, uma carta e um fio de ouro com um retrato.
Deitou-se, mas não dormiu.
À memória vinham-lhe imagens do que tinha sido a sua vida até aí. Quando passava pela rua, as pessoas fingiam que não a viam. Mas referiam-se a ela com o apodo com que a tinham brindado. Chamavam-lhe "Viúva". Não porque lhe tivessem conhecido marido. Apenas porque nunca a tinham visto acompanhada. Inventavam-lhe mistérios, sofrimentos, desgostos.
Diziam que era esquisita, que sofria de histeria.
Levantou-se cedo na manhã seguinte, ainda era noite lá fora, dirigiu-se a pé à estação de comboios, escolheu um destino, pagou o bilhete e partiu.
Ia recomeçar a vida noutro lugar, longe do fantasma do único homem que amou, e que dizia que a amava também, mas que escolhera casar com outra para cumprir a palavra dada há muitos anos atrás, quando ainda não existiam um para o outro – desculpara-se ele, naquela carta. Juntou-lhe um fio de ouro com um retrato, jurou-lhe amor eterno e exclusiva dedicação, quando a outra o dispensasse das obrigações familiares. Julgava ele que ela iria contentar-se com as suas migalhas de afecto e atenção?
Ela sentiu-se traída, perdida, vazia.
Tomou uma decisão: merecia mais, melhor. Menos do que ser tudo na vida de alguém era ser pouco, muito pouco. Nada.
Não se despediu de ninguém e ninguém deu pela sua falta.













