O Pedro Viegas, do
1000 conversas, desafiou-me a fazer 5 revelações sobre mim. Eu fiz as minhas 5 primeiras relevações há pouco tempo mas, como não sou pessoa de virar as costas a um bom desafio, resolvi aceitar.
Eu já... vou na minha segunda vida.
2003 foi um ano muito complicado: estava a fazer mestrado, descobri que tinha um tumor (acabou por se revelar benigno e até hoje tem estado a correr tudo bem, embora o tenha sempre "debaixo de olho"), profissionalmente as coisas não estavam a correr muito bem e foi também o ano em que me separei do meu ex-marido. A pressão vinha de todos os lados e não sabia para onde me virar. Mudei de casa, não conhecia ninguém no lugar para onde fui morar, as preocupações com dinheiro não me davam descanso, não conseguia concentrar-me no mestrado, e a solidão e uma sensação de profundo desajuste acabaram por ser mais fortes do que aquilo que eu podia suportar naquela altura.
Comecei a ser acompanhada por um psiquiatra, mas a depressão já era profunda. A relação médico-paciente não era a melhor. Eu pagava para estar uma hora a chorar no consultório, ele olhava para mim, eu tentava explicar-lhe a minha angústia, ele não respondia. Escrevia, pousava a caneta, olhava para mim, e eu chorava. A medicação era forte, mas eu precisava mesmo de um "milagre". E o milagre não acontecia. Claro que tinha amigos (os mesmos que tenho hoje) e uma família que me dava todo o apoio que podia (e sabia) dar. Mas "eu" era o problema. Não me perdoava os fracassos e apontava-me como culpada. Sim, porque eu é que andava insatisfeita, eu tinha saído de casa, eu é que não me contentava com a vida que tinha tido até aí. Escondia os problemas e escondia-me de todos. Fazia das tripas coração, mas ia trabalhar como se estivesse tudo bem.
Foram dias de uma profunda solidão. Dias em que olhava para a frente e não via nada. Era como ter chegado ao fim do caminho, ter um muro intransponível à frente e não poder voltar para trás.
Na altura, começou a ganhar forma a ideia de suicídio. Uma ideia que estava presente há muitos anos, mas que agora já não era só uma ideia. Era um plano. Não era a solução para nada. Era o ponto final. Era a palavra "fim" que vemos quando acaba um filme. Aquele filme já não era o meu. Não era a protagonista da vida que vivia. Era figurante. Era marioneta.
Coleccionei todos os antidepressivos e ansiolíticos que consegui. Foram muitos. Não foram os suficientes. A minha morte foi uma decisão pessoal, não podia envolver outras pessoas. Se calhar, foi o que me salvou.
Queria um método eficaz e ponderei recorrer à arma do meu pai (ele é caçador), mas isso seria condená-lo a um sentimento eterno de culpa. Além disso, não podia ser em casa dos meus pais (não queria sujeitá-los a isso) e transportar uma caçadeira nos transportes públicos não era a minha ideia de discrição. No metro, na linha de um comboio, também não me pareceu a melhor solução. Eu não queria testemunhas. Não queria que a imagem atormentasse o sono de ninguém.
Em meados de Julho surgiu a oportunidade que me pareceu perfeita: os meus pais iam passar um fim-de-semana fora, a minha irmã também estava fora de Lisboa, e eu podia finalmente morrer calmamente em casa, sem ser surpreendida com uma visita surpresa de ninguém.
Deixei tudo organizado: o número das contas no banco, os cartões com os respectivos códigos, o cheque da renda da casa assinado, a indicação do nome e contacto de uma colega a quem deviam telefonar na segunda-feira, a indicação de uma pessoa que me podia substituir nas aulas, e o destino a dar aos meus livros.
Tirei todos os comprimidos das caixas, escondi-as, levei uma garrafa de água para o quarto, tomei tudo o que havia para tomar. Deitei-me.
E na manhã seguinte, acordei. Não conseguia estar de pé, mas estava relativamente lúcida. Telefonei a uma pessoa que já tinha feito uma tentativa de suicídio há muitos anos e pedi-lhe desesperadamente que me ajudasse a morrer. Nem isso tinha conseguido fazer sozinha.
Claro que ela me prometeu ajuda, mas não me fez a vontade. Desse dia (e dos dias seguintes) só me recordo de episódios isolados. Lembro-me de ser transferida para o Curry Cabral (o hospital onde havia urgências psiquiátricas), da conversa que tive com o médico que me recebeu (e que hoje continua a ser o psiquiatra que me acompanha), e de muito tempo depois estar já internada no Miguel Bombarda. Sei, por conversas posteriores, que a transferência aconteceu 2 ou 3 dias mais tarde.
Estive internada cerca de 3 semanas. Tenho falhas de memória em relação a muitas coisas que aconteceram durante esse tempo. Descobri na semana passada, por exemplo, que uma grande amiga me tinha ido lá visitar. Contou-me que estivemos a conversar numa sala durante todo o tempo permitido para visitas. Eu não me lembro. De nada.
Mas lembro-me de outras coisas: de ter estado presa à cama durante as duas primeiras noites, de acordar cedo e estarmos em fila indiana à espera da nossa vez para tomarmos banho, de bebermos o leite, de manhã, numa chávena de esmalte, do frio que me gelava até à alma, e do vazio. Não sentia nada. Estava oca, vazia, e pela primeira vez em muitos meses, não tinha lágrimas. Já não chorava.
Lembro-me também de uma senhora, muito velhinha, a quem descascava sempre uma laranja depois do almoço. Lembro-me da história dela. Contei-lhe parte da minha. Lembro-me que me perguntou "se tinha marido". "Estou separada". "Ah, foi deslargada".
Lembro-me dos gritos dilacerantes de quem chegava a meio da noite. Da solidariedade das dores partilhadas. Do medo de sair dali. E de me sentir completamente alheada, perdida, no dia em que saí do hospital.
Aprendi depois, com muita psicoterapia, a perdoar-me por não ser perfeita. Aprendi a lidar com a minha morte. E aprendi que esse fantasma é caprichoso, vem quando quer e nem sempre responde ao nosso chamamento.
Voltei a ter dois episódios graves de depressão, mas aprendi a reconhecê-la e já sabia o que fazer. A psicoterapia ensinou-me que não sou "louca". Nem "fraca". Dizem-me que tenho um desajuste químico. Prefiro pensar que tenho uma certa tendência para a "melancolia".
Agora acho que se compreende melhor a minha resposta ao primeiro desafio: "Eu já… tive a sorte de ser tocada pela mão do milagre chamado “esperança”" .