Artista: Rui (In- Provavel)Soube desde muito cedo o que queria ser quando "fosse grande". Queria ser professora. Simultaneamente quis também ser cabeleireira, ama, cozinheira, arqueóloga... Mas professora, sempre!
Sentei-me no sofá da sala. À minha frente, duas estantes apinhadas de livros. Uns arrumados na vertical, outros na horizontal. O critério é simples: o da economia de espaço. Gosto de ficar a olhar para eles, tiro um ou outro, leio as contracapas, folheio-os, namoro-os, volto a arrumá-los no lugar.
Os títulos fascinam-me. É-me difícil resistir a um bom título mesmo sabendo que isso não é garantia de um bom livro. Às vezes imagino que outra história se poderia acolher sob o mesmo título. Foi o que aconteceu com "O Nome da Rosa".
Hoje dei por mim com "A Soma dos Dias":
Foto: http://www.flickr.com/photos/21873122@N08/2490580130/
Ela não era como as outras mulheres do seu tempo. Não se casara, não tivera filhos e escolhera uma profissão num tempo em que as mulheres não trabalhavam.
Nasceu antes de tempo. Num tempo que não estava preparado para mulheres assim. Não cuidou de criancinhas abandonadas nem de enfermos esquecidos numa cama de hospital. Ninguém sabia o que fazia dos seus dias. Dizia-se que trabalhava no teatro, que dormia de dia e trabalhava à noite. Talvez fosse actriz num antro de maus costumes...
A família desistiu de lhe fazer perguntas e tolerava-lhe as excentricidades. Teve amigos e amantes, mas não suportava sentir-se presa.
Um dia anunciou que já não vivia sozinha. Tinha um companheiro, aos 75 anos. As pessoas riam-se com aquela paixão extemporânea e inusitada.
Ela ignorou as críticas veladas. Escolheu não se contentar com a soma dos dias.
Hoje de manhã fui lá abastecer-me de fruta e legumes. Até aqui, nada de especial. O caso extraordinário deu-se quando parou uma motorizada que compete em níveis de ruído com as Zundapp de outros tempos.
- Olha! É o carteiro! - E os olhares dirigiram-se quase todos para a porta.
A famosa personagem entrou, despiu o impermeável a pingar, e foi distribuindo sorrisos e cumprimentos.
- Há correio para mim?
- Oh Sr. Carteiro, a minha reforma? Ainda não chegou?
- Hoje não há nada para si.
- Veja lá, não se vá enganar e deixá-la na caixa do 2º dto. Não está lá ninguém e depois é uma carga de trabalhos!
- Fique descansada. Quando chegar alguma coisa, toco à campainha e entrego-a em mão.
E lá foi ele dando explicações como se fosse o médico da aldeia apanhado por descuido à porta da igreja depois da missa de domingo.
- Este tempo... O Sr. Carteiro, coitado, farta-se de apanhar frio e chuva! Deixe lá que eu vou oferecer-lhe umas luvas quentinhas.
- Não é preciso. Não me dá jeito usar luvas. Depois não consigo separar o correio.
- Pois é... Coitado! Olhe, beba um café coma um bolinho, que hoje ofereço eu!
- Isso é que era bom! O café ofereço eu! Eu já lhe tinha dito ontem...
As conversas continuaram, com as velhotas a digladiar-se na negociação das ofertas de bolos e cafés, e eu saí a cantarolar uma música do Sérgio Godinho:
Chegou o carteiro
das nove p'rás dez
e a vizinha do lado
de roupão enfiado
chegou-se à janela
em bicos de pés
e logo gritou:
"traz carta p'ra mim?"
e o carteiro que é gago
espera um bocado
e responde-lhe assim:
"não não não não não
não não não trago nada
só só só só só
só trago o pacote
da sua criada"
O frio é tanto que até a minha alma está entanguida!
Confesso que não é o tipo de leitura que prefiro. Confesso que olho até para alguns títulos com alguma desconfiança. Tenho dificuldade em dar o benefício da dúvida a livros que contêm receitas para uma vida feliz. Ou para famílias exemplares.
Foto: http://www.flickr.com/photos/buyie/3154073496/
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